Saturday, July 12, 2008

o post que pode virar qualquer coisa, desde uma tartaruga até uma orquídea - (originalmente escrito em 25 de junho)

hoje foi um dia longo. fui à aula de espanhol, voltei para casa, reunião do projeto de cinema, aparentemente nada demais. mas nossa, dentro de minha cabecinha aconteceu tanta coisa. o turning point do dia foram as horinhas em casa no meio da tarde. estava com um daqueles apertos no peito, uma mistura de tudo. foi quando num impulso, abri um arquivo em pdf. do livro de contos "dentes guardados" do daniel galera que tinha baixado há muito tempo. e aí eu entendi tudinho.

li esse livro aos 16 anos, emprestado da marina poema. lembrei que, na época, copiei um trecho no meu caderno. não me recordava exatamente do trecho, apenas sabia o título do conto, mas o reconheci rapidamente:

"A vida é uma queda, e a vertigem é o melhor de qualquer queda. Quem sabe a vertigem de uma vida é essa sucessão incontrolada de desejos, medos, anseios e alegrias e toda espécie de sentimentos que, deslumbrados, nos esforçamos em entender e controlar? Mas por mais que controlemos a nossa queda, ela sempre resultará no mesmo encerramento fatídico: nos esborrachamos lá embaixo. Logo, por que não encarar nosso fim, inclinando a cabeça para baixo, fitando corajosamente o abismo que se revela, fazendo de nossa vertigem algo intenso, válido, perturbador? Por que não fazer da morte a obra-prima da vida, o desfecho glorioso de um livro complicado e difícil de entender, mas que contudo nos leva ao riso e ao choro, à dor e ao gozo, à paz e ao desespero?" p.22

sei que se eu tivesse lido esse trecho pela primeira vez agora, não iria gostar tanto. acho que depois de já ter sofrido de uma forma que aos 16 anos não conseguiria materializar, hoje talvez eu prefira algo mais "lost in translation", se é que vocês me entendem. mas nossa, ainda bem que eu li, é incrível o quanto essas experiências dos 16 anos me afetaram profundamente para sempre. mesmo sem saber direito o que eu quero ser, sei o que eu não quero, desde cedo eu sempre soube e isso já me parece o bastante. ainda que difíceis, algumas decisões parecem certas de serem tomadas.

quero ser diretora de arte em hollywood, garçonete na europa, professora universitária no brasil ou não ter emprego nenhum e só morar da maneira mais bonita em atibaia. mas tudo isso não importa, posso me transformar em uma tartaruga ou em uma orquídea e vai estar tudo bem. porque depois de ter um glimpse do que a vida pode ser, você não quer nada que se situe abaixo disso e não há outra possibilidade que não seja sentir a vertigem. e não é por isso mesmo que quando senti o aperto, eu intuitivamente sabia que era isso o que precisava ler?

ps - baixe o livro aqui: http://www.ranchocarne.org/

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