what it feels like for a boy
(loucurinha: eu, que adoro meninos, coloco "linha de passe" na mesma lista que "paranoid park" e "mutum". acredito que a arte contemporânea fará mais lindas obras acerca do masculino. que bom, não agüento mais as mulheres. nem eu mesma.)
estamos todos nos esforçando muito, inclusive o garotinho que só fica deitado em frente à tv. fazendo uma varredura rápida pelo meu círculo familiar e de amigos é muito fácil identificar uma grande força em cada um. engatar um novo projeto profissional, se recuperar de uma desilusão amorosa, dar vida a uma obra de arte, planejar uma viagem, enfim, ser digno do merecimento de estar vivo, tudo isso demanda muita energia. e o esquisito é que mesmo tendo consciência do tamanho da força que estamos fazendo, às vezes nos achamos um pouco fracos.
é assim que a crueldade com as pessoas que a gente mais ama aparece. já fiquei terrivelmente assustada quando senti o quanto é possível ser machucada pela pessoa que mais quer o seu bem. acredito que isso aconteça porque todos estão à espera do reconhecimento de sua dor e mesmo que o reconhecimento exista, nem sempre é possível expressá-lo. em "linha de passe" se espera um reconhecimento da dor de não conhecer o próprio pai, do esforço para desentupir a pia, do medo de um emprego sufocante em um escritório quando se sonha com os campos de futebol. como uma mãe que mal consegue lidar com suas próprias dores pode expressar o reconhecimento da dor de cada um de seus quatro filhos? e a crueldade vira um grito desesperado por atenção.
para eduardo coutinho, as pessoas falam por necessidade de justificação, citando pierre bordieu: “Ninguém pode proclamar verdadeiramente, nem diante dos outros, e muito menos diante de si mesmo, que ‘dispensa qualquer justificação’. O inferno são os outros, sem o outro você não existe, você não é reconhecido. Quando fala para os outros, a pessoa sente que tem nesse momento a possibilidade de se justificar”. não consigo imaginar a cleuza explicando para qualquer personagem do filme como ela pôde engravidar de seu quinto filho na mais adversa das situações, mas tenho certeza que se fosse num documentário do eduardo coutinho, ela daria a mais linda justificação.
enquanto não somos entrevistados por eduardo coutinho é bem difícil lidar com tudo que já se viveu. eu tenho muita vontade de dar a alguém tudo que já vivi, mas sou consciente que é impossível que esse alguém seja um conhecido. essa relação só pode se dar com desconhecidos que não exijam uma explicação, que simplesmente entendam. cada um dos cinco personagens do filme ganha uma fortíssima seqüência final individualmente e quem recebe o que cada uma dessas pessoas viveu somos nós espectadores.
e a redenção nunca vai ser gerada por tentativas de reparações burocráticas. o conforto aparece mesmo é no inusitado banho dividido com o irmão em uma madrugada. assim como o menino que ensaiou todos os movimentos do volante, eu também estou aqui ensaiando os movimentos para que em breve esteja dirigindo meu ônibus.
9 comments:
Oi,
"Ser digno de estar vivo demanda muita energia."
A gente tem com quem conversar.
(Eu te vi no shopping. Às vezes eu te vejo e não falo, porque você parece muito entretida com algum pensamento e eu não quero te fazer parar.
Viu Blindness?)
Gostei muito, umas duas horas depois.
Logo na saída eu fiquei com bobagenzinhas de quem leu o livro, inevitável. Mas foi passando. Agora já quero ver de novo.
...
Quero ver esse filme.
acho q entendo só agora porque vc gostou tanto da minha crítica do kinoforum e do daremo.
"eu tenho muita vontade de dar a alguém tudo que já vivi, mas sou consciente que é impossível que esse alguém seja um conhecido. essa relação só pode se dar com desconhecidos que não exijam uma explicação, que simplesmente entendam."
"como uma mãe que mal consegue lidar com suas próprias dores pode expressar o reconhecimento da dor de cada um de seus quatro filhos?"
vc está de parabéns.
orgulho.
:~~~~
ah!
e isso pode estar mesmo em qualquer outra publicação.
mas nada como estar no seu blog.
droga, em tokyo não tem nem linha de passe nem blindness...
"acredito que a arte contemporânea fará mais lindas obras acerca do masculino. que bom, não agüento mais as mulheres. nem eu mesma."
mas o feminino sobre o que arte se cala continua tão misterioso e (por isso) tão encantador quanto sempre.
e eu que te conheço tão pouco fico fascinada por essas suas idéias...
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